A História de Um Soldado de Brinquedo

Na minha infância, eu tinha um boneco de ação muito querido (Mr. Jones), composto de partes de borracha e plástico. Em certa ocasião, durante uma brincadeira, a parte de borracha se rompeu. Sendo eu um habilidoso "mecânico" de brinquedos, acostumado a desmontá-los, trocar suas partes e reconstruí-los, me deparei com um impasse: a porção de borracha que unia a cabeça ao corpo do boneco estava irremediavelmente rasgada, sem qualquer possibilidade de reparo. Recorrendo à minha criatividade, tentei diversos métodos — fita crepe, massinha, cola instantânea —, tudo o que estava ao meu alcance. Contudo, o boneco ficava com a cabeça rígida, imóvel, e era sempre uma questão de tempo até que ficasse solta novamente. Certo dia, após esgotar todas as alternativas viáveis, lembrei-me das palavras que sempre ouvira dos meus pais, da minha avó e das pregações do pastor.. Já era um garoto cristão há algum tempo, desde que nasci, conhecia as histórias bíblicas, e decidi então colocar minha fé em prática. Retirei as improvisações e coloquei o boneco em um baú, começando então a pedir fervorosamente que Deus o restaurasse. Insistentemente, orava, abria o baú e constatava que o boneco permanecia na mesma condição — decapitado. Repeti o processo inúmeras vezes ao longo do dia, buscando orar com "mais fé", utilizando diferentes abordagens, estratégias, orações à distância, imposição de mãos e até citando versículos bíblicos. E, no entanto, nada mudava. O boneco permanecia inerte, como se tivesse saído de um filme de terror. Desisti, não com uma perda de fé, mas com a aceitação, na minha mente infantil, de que, para Deus, a restauração daquele boneco não fazia parte dos seus planos. Aceitei e segui. Mais tarde, naquele mesmo dia, quando meu pai chegou do trabalho, relatei a situação do boneco quebrado, explicando que já não havia como consertá-lo. Ele, sem de forma rápida e simples, pegou a cabeça do boneco, inseriu um parafuso na base, e pronto! O brinquedo estava restaurado, mais resistente do que nunca, pronto para novas batalhas e guerras. Naquele momento, ainda tão jovem, compreendi a mensagem que Deus queria me transmitir: "Eu faço, mas faço do meu jeito, no meu tempo e muito melhor do que você imagina" (Mt 14:22-36). Até hoje guardo esse boneco como um lembrete de como Deus age: Seus planos e Suas obras são muito superiores às nossas expectativas. Contudo, o ponto crucial ao narrar essa história é trazer à luz um aspecto pouco evidenciado: eu poderia ter interpretado essa experiência de forma distinta. Mesmo tendo orado esperando um milagre, o milagre, tal como eu idealizava, não ocorreu. No final, quem solucionou o problema foi meu pai biológico, por meio de uma ação simples, desprovida de qualquer elemento sobrenatural. Perdendo assim, minha fé. Hoje, percebo que estamos cada vez menos atentos à voz de Deus. Somos bombardeados por um fluxo incessante de informações rápidas, que explodem diante de nós e consomem nosso tempo, deixando pouco espaço para perceber os detalhes, as nuances e a voz de Deus. E ainda assim em diversos lugares, vemos "milagres" (Mt 24:5), grandes eventos que, na realidade, se revelam vazios, sem uma transformação duradoura. Muitos vivem de milagre em milagre, mas nada disso promove uma mudança substancial na vida, não há correção de caráter, constrangimento moral, renúncia ou conversão. Quantas vezes, ao longo do dia, paramos para ouvir o som do vento, observar a queda das folhas, sentir o calor do sol, a brisa tocar a pele ou simplesmente ler a Bíblia? Talvez Deus esteja falando conosco, mas nós é que não temos percebido (Jó 33:14).

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